sábado, 29 de maio de 2010

O beija-flor, a garota e a mãe

O vento entrou vagaroso pelo estreito vão da janela. Seu sopro foi o suficiente para fazer bailar a fina cortina de metal em tiras que ameaçavam dobrar, mas que logo entornavam para o lado oposto; isso não foi o suficiente para desviar a atenção de Amália, jovem garota de pouco mais de dezessete anos, que segurava as envelhecidas e enrugadas mãos de sua mãe.

Pelas veias da mão esquerda da velha senhora, a agulha e o soro lenta e mudamente gotejavam, se espraiando como se fossem tapas tentando cortar o líquido atrevidamente dentro do tubo. Estava razoavelmente quente, o suficiente para que Amália segurasse e espremesse um lenço umedecido entre a têmpora e a testa de Dona Amélinha.

Fazia uma semana que ambas estavam ali no leito do hospital, esperançosamente aguardando melhoras. Dona Amélia, 64 anos, encontrara há quase 20 anos a pequenina e rubra garota que fora abandonada dentro de uma igreja, por desconhecidos. Devota, fiel companheira do padre e das missas matinais, foi a primeira a encontrar o cesto de palha, com uma fralda de algodão desbotada e esfiapada. Aqueles olhos espremidos e chorosos expressavam aquilo que a voz, fraquinha, escapava perdida.

Sentiu, no exato momento em que suas mãos tocaram a pele rosada do bebê, que havia uma conexão ali, uma ligação súbita e única. Abraçou para si o cesto como quem agarra uma oportunidade, a de fugir da solidão, a oportunidade de não estar mais sozinha no mundo.

Num primeiro momento, pensou se a pessoa que largara aquela criança talvez estivesse por perto. Ou ainda que a criança tivesse sido roubada dos verdadeiros pais e, num ato de arrependimento, deixara a criança no interior da igreja.

Poderiam ser outras coisas, qualquer coisa, mas ela não pensou em nada. Caminhou, parou, agraciou a criança sem graça ou sorriso, depois continuou, inquieta. Chamou pelo padre, contida, mas o pároco não respondeu.

Dona Amélia era uma senhora viúva, na verdade ficara viúva aos trinta e cinco anos de idade, numa pequena cidade do interior da Bahia. Por ser a cidade pequena demais, e ela já não mais ser uma garota na flor da idade, pensou que um segundo casamento, naquela altura da vida, seria muito difícil, a talvez até inapropriado por aquelas regiões; por conta disso apenas passou a levar a vida.

Se gostava do então marido, isso ela seria incapaz de dizer. No dia seguinte ao velório do falecido, sentiu um aperto no peito; no meio da cozinha, enquanto a xícara de café esfriava calmamente, ela sentiu aquele aperto de quem está sozinho, de quem não divide a mesa para as refeições, do tipo que não divide o cobertor no meio do frio da noite, e esta perda e ausência lhe foi sofrível, profundamente. Se isso era amor, ah, Dona Amélia não se sentia capaz de dizer. Mas foi assim que a vida quis, foi isso que o destino lhe ofertou, e foi assim que Dona Amélia passou a viver.

Mas naquele novo momento diante do altar da igreja suas sofridas e calejadas mãos seguravam algo que poderia modificar a sua vida, talvez uma oportunidade única, a presença de alguém, de um outro alguém, não um marido ou algo do gênero, mas um filho, algo que até então nunca lhe fora possível, algo que nunca havia pensado, algo que nunca havia sentido.

Novamente chamou pelo padre Onófrio, e agora este a ouvira. Mais intrigado que ela, porém menos entusiasmado, o pároco pensou, pensou e pensou. Por se tratar de uma cidade pequena, eles não conheciam ninguém que recentemente dera a luz a uma pequenina garota naquelas condições, talvez alguém de outra cidade, ou de algum vilarejo, quem sabe alguma gravidez escondida, enfim, não se chegou a um acordo ou veredicto.

Por fim, decidiram que o correto seria aguardar, mas sem fazer muito alarde. Não queriam colocar em dúvida ou expor alguma família mais abastada da região, cuja filha tivera um desvio de conduta inapropriado àquela sociedade estreita e moralista, ou ainda que algum senhorio tivesse engravidado alguma empregada, que ameaçada agiu insanamente largando uma criança á mercê da vida alheia.

Mas prometeram um ao outro que acontecesse o que fosse, se alguém reclamasse pela garota, ela seria devolvida aos verdadeiros pais. Ao padre, cabia rezar pela pobre criança; já Dona Amélia, bem, esta levou a menina para a casa e passou a dar todo o cuidado e amor que uma criança merece.

E foi assim, sem mais nem menos, que o tempo passou; a criança ali foi ficando, e ninguém aparecera para reclamar nada. E conforme os dias foram passando, a senhora e a criança foram se embaraçando, se misturando, se tornando uma família.

Dona Amélia, uma senhora simples, que seria incapaz de descrever a paixão entre um casal, e mesmo sem ter gerado uma criança em seu útero, era capaz de expressar e explicar o sentimento de mãe. Descobriu que o amor nasce não na hora em que concebemos, geramos, enxergamos ou tocamos algo, mas sim no decorrer do tempo, na ocupação de um espaço dentro da vida que é capaz de preenchê-la, de resumi-la. Seu simples linguajar não poderia dizer belas palavras, mas seu renovado coração dava todo amor àquela criança, e não havia necessidade de maiores explicações.

Foi assim nas primeiras trocas de fralda, foi assim preparando a papinha, foi assim com o primeiro dia de aula, quando ela, com seu ferro a carvão engomara a blusa de Amália. Sim, a criança teve um nome, um registro, a ausência do pai, a ausência do luxo. Mas teve todas as outras coisas que jamais o dinheiro seria capaz de comprar, parcelar, negociar.

Dezessete anos passaram ligeiros, únicos, embolados, cercados de arranhões nos joelhos, dedos das mãos furados por espinhos da roseira, sorrisos por ver o beija-flor respirar no jardim da casa, a graça e o mistério do primeiro dente “caindo de maduro”, tomar sopa no inverno, usar meias de cores diferentes em cada pé pra dormir, olhar pelo furo do cobertor, enquanto o dia amanhece.

Agora ambas estavam ali, lado a lado. Amélia segurando a mão da mãe, cuidando, preocupada. A senhora quase tossia por completo, com uma exalação forçada, um peso incomum no tórax, um peso físico porém invisível, a perda do controle dos sentidos, da respiração, tudo talvez se resumisse a uma palavra: cansaço.

E não é o cansaço acumulado ao longo dos anos, mas um cansaço que chega sem avisar, no meio da semana, trazendo um desânimo. Os médicos chamam de pneumonia, descrevem certos sintomas e doenças nos livros, além de usarem outras combinações, que na linguagem rotineira do hospital parece normal, mas só quem está acamado pode de fato interpretar seu significado.

E assim, Dona Amélia já não se importava em tremer os músculos da mão. A vida, de certa feita, é injusta. Mas a vida, de certa feita, pode ser bela. Eram suas poucas e sábias palavras, pronunciadas somente a partir “de uma certa altura da vida”. Aquela noite foi longa para ambas, Dona Amélia fazia questão em não dormir, resistia, mas não conseguia. Tirava pequenos cochilos, delirava um pouco, produzia sons desconexos ou palavras soltas, e Amália sabia seus significados, interpretava-os a sua maneira.

Já na metade da madrugada, o calor vazando para dentro da janela, Dona Amélia retomou sua lucidez, de forma temporária e breve. Disse que estava cansada, que ia pra casa, e pediu a Amália que não deixasse a luz da sala ligada quando fosse dormir. Não dava pra desperdiçar dinheiro com a energia, enquanto estava dormindo e não precisava enxergar nada. E quanto ao pequeno jardim na frente da casa, que tinha a tal roseira fura-dedo, ah, deveria aguar tudo sempre, sempre. A beleza do jardim não consistia nas palavras, mas nos cuidados; a bela da rosa não vinha dos livros, mas vinha gratuita, da natureza, desde que cuidada de forma correta, adequada.

Quanto aos homens que um dia viriam a tirar o sono de Amélia, a garota não deveria deixar de dormir. Quem quer que fosse, se a amasse um dia, de verdade, não a faria perder o sono. “Nem por paixão”, questionou Amália à sua mãe. “Quem sabe”, respondeu a mulher, “quando você descobrir, me avise, menina”.

E depois a mulher mais velha dormiu, profundamente, para sempre. A cortina de metal tremeu, contorceu, vibrou, zuniu, esticou e depois aquietou. Somente o som do vento vazando pela janela era ouvido. Amália, ainda segurando a mão da mãe, viu distante um beija-flor bebendo das flores, se embriagando. Talvez fosse surreal, talvez não fosse, o que importava naquele momento? Com o lenço umedecido, acariciou a testa da velha senhora. A noite continuou, sorrateira, triste ou feliz, não importa, apenas a noite continuou.

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